Hiding Octopus with Eggs. Fonte da imagem: Schmidt Ocean Institute

Os cientistas do Conselho Argentino de Investigação Científica (CONICET) encantaram todo o país com a transmissão em direto de uma expedição subaquática ao oásis do Canhão de Mar del Plata. Esta aventura, a bordo do navio Falkor, do Instituto Oceânico Schmidt, com o seu robô SuBastian — um veículo operado remotamente capaz de atingir profundidades de 4.500 metros —, cativou grande parte da população com uma série de masterclasses que uniram a investigação e a divulgação das ciências marinhas, com o conhecimento, a profundidade e, acima de tudo, o amor pelo trabalho.

A expedição levou também, talvez como nunca antes, à descoberta de cerca de 40 espécies e plantas inéditas, que podem agora ser estudadas a uma nova escala. Estes investigadores afirmam que tudo o que for recolhido será útil, pelo menos, para os próximos 10 anos de investigação. O espanto com estas descobertas, ao vivo e presencialmente, trouxe também uma enorme alegria a todos os observadores, mas especialmente aos especialistas que, a bordo do navio, passaram três semanas, trabalhando em turnos diferentes, diurnos e nocturnos, para realizar toda a expedição.

Falkor. Fonte da imagem: Schmidt Ocean Institute

“O nosso programa de investigação robótica subaquática inclui um Veículo Operado Remotamente (ROV SuBastian) com capacidade para profundidades até 4.500 metros e investigação para utilização no R/V Falkor. O ROV está equipado com um conjunto de sensores e equipamentos científicos para facilitar a recolha de dados científicos e amostras, bem como a investigação interativa, a experimentação e o desenvolvimento tecnológico”, explicou o Schmidt Ocean Institute.

Para além de todo o interesse despertado pela vida marinha, que levou o New York Times à TV France a cobrir o tema, a expedição revelou um problema grave: a poluição plástica. Estima-se que entre 19 a 23 milhões de toneladas de resíduos sejam despejadas nos ecossistemas aquáticos anualmente.

Cientista-chefe Daniel Lauretta (CONICET) a bordo do Falkor. Fonte: Schmidt Ocean Institute

Após a expedição na Argentina, o Instituto Oceânico Schmidt planeia iniciar uma nova viagem ao largo da costa do Uruguai esta sexta-feira, 22 de agosto, para desvendar os mistérios do fundo do mar e dos seus ecossistemas: o Uruguai SUB200.

A expedição, composta por cientistas locais de várias instituições académicas do país, bem como por especialistas e investigadores internacionais, procurará gerar conhecimento sobre esta biodiversidade marinha, documentando espécies e ecossistemas que habitam as profundezas, muitos deles ainda desconhecidos.

Gustavo Villa, jornalista científico e radialista da TV Ciudad de Montevideu, o único órgão de comunicação a bordo, falou com a Navegantes Oceânicos sobre as expectativas para esta grande aventura.

Qual é o objetivo da expedição que começa agora no Uruguai? Quem a está a organizar?

—A Expedição Uruguai Sub200 visa investigar e observar diretamente, pela primeira vez, as águas, o fundo marinho e a zona económica exclusiva do Uruguai, entre os 200 e os 3.500 metros de profundidade, de sul para norte, desde a fronteira marítima com a Argentina até à fronteira marítima com o Brasil. A viagem incluirá 37 cientistas de seis países diferentes, embora a maioria seja composta por investigadores do Uruguai.

Qual é a diferença entre esta expedição e a que observámos na Argentina?

— Esta expedição, ao contrário da realizada na Argentina, que se concentrou exclusivamente numa característica geográfica próxima da cidade de Mar del Plata, explorará sete desfiladeiros, alguns sítios subterrâneos interessantes e sítios arqueológicos, como um navio de guerra uruguaio naufragado. Investigará o que aconteceu à biodiversidade que se poderá ter desenvolvido em redor daquele naufrágio.

Investigará também o subsolo do fundo do mar, onde são produzidas as emanações, e a fauna micro e macroscópica destas profundezas. Para além da fauna do fundo do mar, estará presente um grupo de especialistas em fauna marinha de superfície. Por fim, serão realizadas pesquisas sobre a salinidade e a temperatura da água, entre outros parâmetros físico-químicos.

É a primeira vez que o Uruguai realiza uma expedição desta natureza ou já foram feitas pesquisas nesse sentido?

— Não, é uma das primeiras investigações que estão a ser conduzidas. Será um grande projeto interdisciplinar que irá gerar um enorme conhecimento sobre o território, praticamente desconhecido, exceto pequenas investigações realizadas antes desta possibilidade, como a do navio espanhol que confirmou a presença de corais de água fria nas águas continentais do Uruguai.


ROV SuBastian. Fonte da imagem: Schmidt Ocean Institute

Quais são as suas expectativas e quais são as principais pesquisas? Principalmente tendo em conta o fenómeno que a expedição desencadeou na Argentina, devido ao número de visualizações e ao número de seguidores da música via streaming.

— A expectativa da expedição, no fundo, é registar, visualmente e com todos os instrumentos que este navio possui, para além do SuBastian, toda a área a explorar. Hoje, temos mapas, mas não os detalhes que serão alcançados após esta experiência, como os detalhes do relevo do fundo do mar. Esperamos também ver como o choque das correntes quentes do Brasil e as correntes frias das ilhas Malvinas, que colidem com o território uruguaio, interagem na diversidade da região.

Além disso, esperamos obter conhecimentos sobre a biodiversidade e, em alguns casos, obter informações valiosas sobre o impacto de determinadas práticas de pesca. Por outras palavras, há muitas suposições, mas poucas são conhecidas com certeza, pelo que há muito a explorar.

De que será composta a expedição e quanto tempo durará?

—A campanha decorrerá de 22 de agosto a 19 de setembro de 2025. O plano inicial é explorar 50 pontos de interesse dentro de uma área delimitada a norte pela latitude 34°71′, a sul pela latitude 37°28′, a leste pela longitude 51°41′ e a oeste pela longitude 54°20′. A distribuição em profundidade das estações abrange uma ampla gama de profundidades, desde -3.073 metros a -143 metros. Ou seja, estende-se desde a fronteira com a Argentina a sul e com o Brasil a norte.

Quem são os membros e como será a tripulação??

— A expedição, liderada por Leticia Burone, doutorada em Geologia Marinha, e Alvar Carranza, doutorado em Biodiversidade e Conservação, contará com 37 especialistas em diferentes áreas do conhecimento. Os investigadores principais são Fabrizio Scarabino, Claudia Piccini, Beatriz Yannicelli, Juan Pablo Lozoya e Javier Sellanes. O barco tem capacidade para 25 pessoas, pelo que, haverá uma mudança de rumo no dia 5 de setembro, com a participação de um total de 37 cientistas.

Foi ainda coordenada a participação de Alejandro Balbis, músico — algo pouco comum nestes casos, embora já tenha acontecido noutras ocasiões. É muito popular no Uruguai, com presença no Candombe e no carnaval local. Outro aspecto interessante desta expedição é que um jornalista científico, neste caso eu, participará na missão. Tem interesse em pesquisa. É por isso que vamos também transmitir a partir do navio o programa Sobreciência, que é transmitido pela TV Ciudad, canal público da Câmara Municipal de Montevideu.

Family of Lobster. Fonte da imagem: Schmidt Ocean Institute

Celebrating the deep. Underwater Oases Mar del Plata Cannyon. Fonte: Schmidt Ocean Institute

Nós, na “Navegantes Oceânicos”, gostaríamos de agradecer ao jornalista e cientista Gustavo Villa e ao Schmidt Ocean Institute pela colaboração nesta matéria.

Desejamos-lhes muita sorte e sucesso nesta importante nova Expedição Uruguai Sub200.