Paula e Carlos, um casal de Córdoba, navegaram pelo Oceano Atlântico no seu veleiro, La Linda, percorrendo 22.000 milhas. Passaram 20 meses no mar, visitando 23 países, uma viagem guiada pelo vento, pelo clima e pela sua inabalável determinação. Agora de regresso à Argentina, recordam a sua aventura e planeiam novas viagens.

Nesta manhã de domingo, no início de maio, no porto de San Isidro, a cerca de 30 quilómetros da cidade de Buenos Aires, Paula e Carlos, recém-chegados das suas aventuras pelo mundo, reconhecem que a experiência os mudou, sem dúvida, para sempre: a bordo do seu veleiro LaLinda, partiram da Argentina a 1 de setembro de 2024 e regressaram com o outono do Hemisfério Sul no sábado, 11 de abril, quase dois anos depois.

A poucos quilómetros de chegar a Buenos Aires, apenas ouviram saudações de outras embarcações na rádio VHF, como “Bem-vindos ao Rio da Prata”.
Entre o vento e as marés, aprenderam a viver e a apreciar as coisas simples, a desprender-se em todos os sentidos, a agradecer ao mar que os abrigou durante estes anos e a cuidar de LaLinda, que lhes permitiu experimentar tanta alegria nesta viagem.

Como é que ele começou a velejar?

(Paula) Comecei a velejar quando conheci o Carlos, há 13 anos. Antes desta viagem, só tinha velejado em Córdoba, no Rio da Prata, em Angra dos Reis, no Brasil, e nas Ilhas Virgens Britânicas. Apesar de ser timoneiro e mergulhador, pode dizer-se que baptizei a minha carta náutica com 22.000 milhas náuticas (risos), de zero a cem sem parar!. 

(Carlos) Comecei a velejar ainda criança, aos 5 anos, em barcos Optimist e Snipe. A partir dos 8 anos, sonhava atravessar o Atlântico, e todos me diziam: “Que miúdo sonhador!”. Com o passar do tempo, fui fazendo vários cursos, como timoneiro, comandante, piloto, meteorologia, sobrevivência, etc. A cada viagem, aventurava-me por distâncias maiores, desde o Campeonato do Mundo de J24 à Regata Buenos Aires-Rio de Janeiro, a Taça Galápagos, e até atravessei o Atlântico quatro vezes.

Como chegaram a La Linda?

(Carlos) Um dia, ela cruzou-se nos nossos caminhos e foi amor à primeira vista. Vimos o seu anúncio online, fomos conhecê-la e apaixonámo-nos. LaLinda é um Wind 43, desenhado por Néstor Volker e construído na Argentina pela Southern Boats. É uma embarcação concebida e construída para o mar, com 17 toneladas, o que a torna muito robusta e sólida para viagens oceânicas. Logo após adquiri-la, começámos a planear a nossa viagem pelo mundo.

(Paula) O navio foi construído num estaleiro especializado em navios de cruzeiro, razão pela qual tem tantos detalhes incríveis. O design de interiores apresenta madeira laminada curva, criando uma atmosfera moderna e convidativa.

Como decidiu embarcar nesta aventura?

(Carlos) Foi um processo longo. Tudo começou um ano antes de zarparmos, quando começámos a perguntar-nos: “E se… navegássemos pelo mundo?”. Um dia disse à Paula: “Preciso de te contar uma coisa. Vamos velejar com a LaLinda durante um ano nas Caraíbas.” Ficou estupefacta, sem palavras.

(Paula) A nível pessoal, procurava algo que me dissesse que não, mas tudo simplesmente se encaixou e as nossas vidas começaram a desenrolar-se. Foi assim que a mais bela aventura das nossas vidas começou a ganhar forma.

(Carlos) Paula descreve sempre a viagem de uma forma muito bonita: “Fechamos a porta de casa para abrir as portas do mundo.”

Como planearam a rota dessa viagem?

(Paula) Todo o itinerário foi planeado de acordo com as condições meteorológicas, para estarmos em cada local nos melhores momentos para navegar. Inicialmente, iríamos apenas para as Caraíbas e regressaríamos à Argentina via Açores, Canárias e Cabo Verde. Foi nesse momento que disse ao Carlos: “Vamos atravessar o Mediterrâneo sem sequer entrar?”. E foi assim que o roteiro foi refinado e a viagem prolongada por meses…

(Carlos) La planificación nos tomó más de un año, siempre digo que hay varios capítulos: uno es la preparación del barco, otro el derrotero (según la meteorología), los puertos, los trámites administrativos de cada país para el ingreso, los fondeaderos, la marea del lugar; y por último la parte turística. Todo esto requirió un estudio y planificación previa. Planificamos una agenda con plazos para cada lugar, obviamente fue muy flexible ya que en varios lugares increíbles nos quedamos muchísimo mas tiempo de lo previsto.

Como decía antes, la planificación fue la base del viaje, por ejemplo, seis meses antes de zarpar ya habíamos mandado un correo electrónico a todas las marinas desde Brasil hasta Bahamas preguntando precios, disponibilidad de amarra, profundidad y los servicios con los que contaban. También analizamos los lugares donde podríamos realizar grandes reparaciones en LaLinda en caso de ser necesarias. Hasta lo más básico de cada país, como saber el idioma, moneda, requisitos de ingreso (migraciones, aduana, visa, vacunas, etc..) y la ubicación de los mejores hospitales. El viaje siempre se pensó para realizarlo en un lapso de tiempo determinado, con un principio y un final.

(Paula) Voltando ao assunto do clima, só podíamos ficar nas Caraíbas no máximo seis meses, pois a época dos furacões começava depois disso. A travessia do Atlântico era idealmente feita em maio ou junho, devido aos ventos. Tudo era sempre planeado para completar cada etapa da viagem no melhor momento. Com a chave do Mediterrâneo na mão, entrámos por Gibraltar, navegando ao longo da costa espanhola até chegarmos às ilhas Baleares, onde passámos todo o verão. Com o primeiro frio europeu, procurámos refúgio nas Canárias, seguimos para Cabo Verde e celebrámos o Ano Novo atravessando o Atlântico em direção ao Brasil. Com a chegada do outono, chegámos a Buenos Aires.

Imagino que, com tanto planeamento, também tenham recebido formação em primeiros socorros.

(Paula) A mãe do Carlos é médica e deu-nos algumas dicas: aprendemos a suturar uma ferida e a aplicar uma injeção. Obviamente, não aprendemos cirurgia de coração aberto (risos)… mas aprendemos o básico para saber em caso de emergência e o que tomar para cada sintoma. Tínhamos um kit de primeiros socorros grande, com todo o tipo de medicamentos guardados em três grandes recipientes de Tupperware, e fizemos um inventário numa folha de cálculo, anotando a quantidade exata, as datas de validade e a utilização de cada um.

Continuaram a trabalhar?

(Carlos) Como a viagem foi bastante exigente e o tempo muito limitado, optámos por fazer uma pausa nos nossos trabalhos de escritório.

 Como era viver juntos?

(Paula) Sempre nos demos muito bem e, agora que vivemos juntos a tempo inteiro, conhecemo-nos ainda melhor. Na nossa rotina diária em Córdoba, entre o trabalho e outros compromissos, passávamos muito tempo separados, mas no barco estamos juntos 24 horas por dia, 7 dias por semana. Dizemos sempre que o mais importante é comunicar e ser completamente transparente se algo acontecer. Desenvolveu-se uma sinergia muito boa entre o Carlos, a Linda e eu…

(Carlos) Um triângulo amoroso… (risos).

Que equipamento possui a LaLinda??

(Carlos) Este barco sempre foi concebido para viagens oceânicas. É um cutter de 43 pés com mastro, pesa 17 toneladas e tem um casco muito espesso. Está equipado com um motor Yanmar de 54 HP. O depósito de combustível tem uma capacidade de 500 litros, o que lhe confere uma autonomia de 1.000 milhas náuticas a motor. Dispomos ainda de um depósito de água de 500 litros e de um sistema de dessalinização que produz 60 litros de água potável por hora.

A LaLinda possui um sistema de energia abrangente, composto por três painéis solares (500 W no total), uma turbina eólica de 400 W e um gerador. Os seus equipamentos eletrónicos são de última geração e tudo está em triplicado, incluindo o piloto automático: piloto setorial, piloto de vento e piloto de vento eletrónico. Para as comunicações, dispomos de três rádios VHF e, para a comunicação por satélite, dispomos das antenas Starlink, Iridium e Inreach. Para o posicionamento e navegação, utilizamos 7 unidades de GPS, radar e AIS, todas a operar na rede NMEA 2000. Por fim, dispomos de 2 balsas salva-vidas (para 6 pessoas cada) e um bote.

(Paula) Somos como uma célula sustentável movida a energia eólica; obtemos a nossa água do mar e a nossa energia do vento e do sol..

(Carlos) Cuando sos autónomo en un barco realmente sos libre.

Que critérios usaram para a navegação?

(Carlos) Quando iniciámos a viagem, dissemos que queríamos uma travessia sem riscos. Em qualquer viagem de veleiro, a pergunta mais importante é: “Quanto quer forçar o barco?”. Preferimos sempre navegar sem sobrecarregar o barco: o mastro de La Linda tem quase 22 metros de altura, o que significa que a sua área vélica é muito grande. Por esse motivo, navegamos sempre com dois rizes na vela mestra. Aliás, em grande parte do troço ao longo da costa brasileira, navegámos sem a vela mestra, utilizando apenas a vela de estai ou a genoa.

Optámos por uma viagem que combinasse conforto e segurança, pelo que o itinerário é ditado exclusivamente pelo clima. Um bom planeamento significa viajar confortavelmente e poder dormir e cozinhar em paz. Optámos também por evitar países ou áreas perigosas para minimizar o risco de qualquer incidente.    

Que aplicações usam nas suas viagens?

(Paula) Existem muitas aplicações, mas acho que o Noforeignland é o que mais usamos. É colaborativo; cria o seu perfil e pode aceder a todas as informações super úteis que qualquer marinheiro precisa. Como, por exemplo, onde se encontra uma lavandaria, onde abastecer, peças náuticas, mecânicos, etc.

Durante a viagem, colaboraram também com a Associação Europeia para o Ambiente, uma organização não governamental que trabalha na conservação dos oceanos.

(Paula) Sim, colaborámos num dos projetos de ciência cidadã da Agência Europeia do Ambiente, denominado projeto SEALABS. Esta iniciativa destina-se aos marinheiros que, durante longas viagens ou travessias marítimas, contribuem para a investigação científica para a proteção dos mares, recolhendo dados sobre sete parâmetros da água (temperatura, pH, salinidade, condutividade, sólidos dissolvidos, etc.) utilizando o kit SeaLabs. Este kit é composto por um copo de recolha, um sensor e uma aplicação para carregar os dados recolhidos. A base de dados é pública; todos os inquéritos podem ser consultados.

Quais foram as coisas mais incríveis que lhes aconteceram?

(Carlos) No troço entre os Açores e Lagos, navegando à noite, recebemos uma chamada de rádio. Não consegui perceber bem o nome dele; era um francês a falar connosco em inglês. Muito simpático, disse-nos que tinha saído de França rumo à Martinica e esperava chegar dali a uma semana. Eu não conseguia acreditar; viajava num trimarã de 21 ou 24 metros, a 35 nós, num troço que levaria pelo menos três semanas para qualquer veleiro. Começámos a conversar e eu disse-lhe que estávamos a viajar da Argentina. Perguntou se era a minha primeira vez a atravessar o Atlântico. Orgulhosamente, disse-lhe que já tinha cruzado três vezes.

Voltou a dizer-me o seu nome e eu não percebi, mas ele disse que, quando era mais novo, navegava com uma galinha. Disse-lhe que conhecia um velejador francês que viajou com uma galinha e foi ao Pólo Norte. Ele disse: “Este sou eu”. Perguntei novamente: “O nome da galinha é Monique?” “Sim, sim”, disse. Era Guirec Soudée, uma lenda da vela. Eu não conseguia acreditar; tinha visto todos os seus filmes, conhecia a sua história de fio a pavio. Tinha participado no Vendée Globe quatro meses antes e agora treinava porque queria velejar sozinho à volta do mundo, mas na direção oposta e sem escalas: bateu o recorde..  

(Paula) Penso que velejar ensina um tipo diferente de humildade. Demos-lhe as nossas informações de contacto, convidámo-lo para a Argentina, e depois ele contactou-nos pelo Instagram. Foi incrível.

E para onde regressariam?

(Paula) Para as Caraíbas, sem dúvida. As pessoas são tão simpáticas, é absolutamente lindo. Há marinheiros que te vêem em apuros e vêm ajudar-te. Também voltaria às Bahamas mil vezes: quando a maré baixa, surgem praias com bancos de areia únicos. São verdadeiros aquários naturais com peixes de todas as cores e tamanhos imagináveis. Outro local que achei incrivelmente bonito foram os Açores; é um lugar incrível, uma ilha selvagem, o mais próximo que existe de um Parque Jurássico.

(Carlos) Se gosta de mergulho, as Bahamas têm todos os tipos de peixes imagináveis. Navega-se em águas minerais, onde se consegue ver a sombra do barco no fundo arenoso. Também gostei muito das Canárias e das Bermudas.

Como se sente agora? De que forma acha que essa experiência o transformou?

(Carlos) Sentimos falta de navegar pelo mundo, conhecer novas pessoas, ter novas experiências e viver no navio. Poderíamos dizer que vivemos mil vidas numa só. Agora, estamos em transição e a adaptar-nos ao regresso do mar à cidade. Voltamos mudados; somos diferentes de quem éramos.

(Paula) Aprendimos a valorar las cosas simples de la vida, vivir más presentes, conscientes y en armonía con la naturaleza. Como así también, perseguir los sueños hasta cumplirlos.

Quais são os seus planos agora?

(Paula) Temos alguns projetos a longo prazo: adoro o calor, por isso as Caraíbas são o meu lugar no mundo! Mas desta vez atravessaríamos o Canal do Panamá para viajar pelo Oceano Pacífico até ao Mar de Cortez, conhecido como o aquário do mundo..

(Carlos) Tengo fascinación por la Antártida, desde hace mucho tiempo tengo ganas de ir. Es una navegación más dura, fría y requiere mucha planificación. Creo que los paisajes más bellos del mundo se encuentran ahí….

(Paula) O Carlos está a tentar convencer-me dizendo que veremos muitos pinguins e baleias pelo caminho! Entretanto, pode acompanhar as nossas aventuras no Instagram @LaLindaSailing. Saudações do mar!.

Nós, na “Navegantes Oceánicos”, agradecemos à Paula e ao Carlos por partilharem as suas experiências de navegação e de vida a bordo com os nossos leitores no seu apaixonante projeto, “La Linda Sailing”.

Parabéns, e desejamos-lhes muita sorte nos seus futuros empreendimentos. Bons ventos e mares tranquilos.

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